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Palavra do Pastor |
| E O VERBO ERA DEUS |
21/12/2009 14:42:39 |
“Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30-31). Com essas palavras, João indica qual foi seu objetivo com esse Evangelho: mostrar que Jesus era Deus. O apóstolo procura enfatizar em seu relato, a todo instante, a glória de Deus revelada, de maneira única e perfeita, na vida e ministério de Jesus, a fim de exaltar a natureza divina do Filho de Deus.
João 1.1
O prólogo do Evangelho já tem esse tom: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (1.1). É interessante notar que essa frase é muito semelhante à primeira frase do Gênesis: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (1.1). O que concluímos com essas duas passagens é que a presença de Deus é uma realidade tanto na primeira criação como na sua nova criação através da Cruz. O texto de 2Co 4.6 parece clarificar ainda mais esse aspecto: “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”. Em ambos os casos, é bom dizer que o agente da criação sempre é a Palavra, ou o Logos, ou o “Verbo” (ARA).
Apesar da filosofia grega se utilizar do termo Logos para indicar a razão presente no universo, é no AT que devemos buscar a etimologia dessa palavra. Ali, a Palavra indica Deus em ação: “Disse Deus... e assim se fez”. Outra coisa curiosa é que essa Palavra, por vezes, é personificada: “Os céus por sua palavra se fizeram” (Sl 33.6). Embora algumas vezes vejamos Deus falando da seguinte maneira: “Disse o Senhor a Isaías” (7.3), outras vezes essa frase é colocada nestes termos: “Veio a palavra do Senhor a Isaías” (38.4). Nota-se aqui uma personificação da Palavra do Senhor, indicando um agente ou mensageiro: “assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.11).
A Palavra não somente estava com Deus, mas era Deus. Por esse motivo, a Igreja cristã, no período do Natal, costuma falar em “advento” mais do que em “nascimento” de Cristo, pois ele é pré-existente.
João 1.10
“O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu”. Mais uma vez a Palavra é citada nesse versículo. Ela estava presente no mundo na primeira criação, mesmo antes do advento de Jesus. “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20). Embora as coisas criadas revelem Deus, a reação do ser humano a essa revelação foi de rejeição. O mesmo aconteceu com Jesus.
João 1.14
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. Já no século II da era cristã, a ideia de que Jesus de Nazaré era Deus em carne humana foi rejeitada por muitos. Afirmando a absoluta distinção do Criador e suas criaturas, os ebionitas se recusavam a crer que Deus se revelou em Jesus. Seu ensino era de que Deus adotou Jesus em seu batismo, fazendo dele um filho especial, e com status superior, por causa da sua superior obediência à lei. Que implicação há em se remover Deus da pessoa de Jesus Cristo? Uma delas é que se remove o escândalo da cruz e seu significado para a salvação da humanidade.
A confissão de Tomé no final do evangelho de João reforça a verdade de que Jesus era Deus (20.28). É interessante observar que os judeus evitavam que o santo Yahweh transitasse por lábios impuros. Tomé estava utilizando linguagem hebraica para afirmar que estava reconhecendo neste homem, Jesus, Deus em carne humana. A igreja primitiva usava as palavras de Isaías 45.23, que descrevem o culto a Yahweh, para serem cantadas a Jesus (Fp 2.10).
No século III, uma doutrina ensinada por Paulo de Samósata sustentava que Cristo era apenas um ser humano. É comum em nossos dias encontrarmos pessoas que creem em Jesus como sendo um “grande homem”, um “grande mestre”, ou um “grande exemplo” para a humanidade. No testemunho cristão, o desafio é apresentar para essas pessoas o testemunho bíblico de que Deus se tornou uma criatura humana com Jesus de Nazaré. Há ainda o Arianismo, que apresenta Jesus como uma subdivindade, sem o atributo da eternidade, sem compartilhar, assim, da essência de Deus. Além disso, essa heresia afirmava que Jesus podia praticar o mal, podendo, assim, progredir moralmente falando, caminho este que Jesus teria seguido.
A passagem clássica nas epístolas da Escritura Sagrada que ensina que Deus veio como verdadeiro homem é Gálatas 4.4. Jesus também é retratado como o servo que se esvaziou até as últimas consequências (Fp 2.7-8).
O Docetismo argumentava que Jesus apenas parecia humano. Isto foi ao encontro da perspectiva gnóstica, que faz uma distinção de valor entre matéria, que é má e inferior, e espírito, bom e superior. Eles não entenderam como um ser infinito e perfeito pudesse ser conectado à matéria. Do seu ponto de vista, isso era inconcebível. Ora, “certamente a palavra da cruz é loucura” (1Co 1.18-23).
Anselmo de Cantuária deu uma explicação filosófica para a necessidade de Jesus ser ao mesmo tempo Deus e homem. Ele argumentou com o princípio de que a justiça exige que onde há ofensa, haja uma satisfação ou compensação. A satisfação deve ser feita pelo transgressor, e a recompensa deve ser igual e oposta à ofensa. A grandeza de uma ofensa é julgada pela importância da pessoa ofendida; a grandeza da compensação, pela importância da pessoa que realiza o ato. O pecado de Adão é uma ofensa infinita, porque foi contra Deus. Se a satisfação fosse feita pelo próprio homem, a recompensa seria finita, pois seria feita por uma criatura finita. Por isso, seria impossível o homem tornar completa a satisfação. A satisfação só poderia ser adequada se ela fosse feita por alguém que é humano (um herdeiro de Adão) e divino (para que recompensa seja infinita). Consequentemente, a encarnação de Deus se tornou necessária para a remoção da culpa do pecado original e para que a raça humana fosse redimida (KENNY, Anthony. A Brief History of Western Philosophy. Malden, Massachusetts, USA: Blackwell Publishers, 1998, p.121). |
Autor: Christian Lo Iacono |
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